segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Eu só pedi pra ser criança!

Eu não sou criança. Eu sou ‘de menor’. Criança tem pai, mãe, tem irmão. Eu sou ‘de menor’. ‘De menor’ tem a vida. Criança tem livro com figura colorida. De menor tem o código. Eu sou ‘de menor’. Criança aparece em anúncio bonito pedindo brinquedo. ‘De menor’ não tem disso. ‘De menor’ é no dedo puxando o gatilho, não sou punido! Eu sou ‘de menor’. Estou confuso quero saber a diferença! Será que sou o dono do mundo? Criança tem disco do Carequinha e Balão Mágico. Eu sou ‘de menor’. Eu escuto o afanázio. Criança tem idade, faz aniversário, apaga velinhas. Eu sou ‘de menor’. Eu já nasci grande, sem mês nem ano, apago velhinhas. Criança é bobinha. Eu sou ‘de menor’, imponho respeito. Criança tem gênio. Eu tenho manias. Eu sou ‘de menor’. Criança tem clube. Eu sou ‘de menor’. Eu tenho minha “gang‘’. Criança tem sítio com pato, galinha, vaca, bezerro, carneiro, cabrito. Eu sou ‘de menor’. Eu tenho tudo isso, mas ganho no grito. Criança mergulha no azul da piscina. Eu sou ‘de menor’. Eu nado, me afogo, na funda lagoa. Eu sou ‘de menor’. Se toco na banda, ninguém me elogia, prestigia. Se engraxo sapato, ninguém diz: “Legal”. Eu sou ‘de menor’. Criança depende do bolso do pai. Eu sou ‘de menor’. Eu guardo automóvel com cara de anjo, divido a grana com os caras marmanjos. Me viro, me arranjo. Como pastel, tomo caldo de cana, descolo hambúrguer de gente bacana. Eu sou ‘de menor’. Atravesso vitrô, eu furo parede, eu cavo buraco, eu salto muralha, eu miro no alvo, derrubo cigarro, endireito cano de curva espingarda, sento na borda da escada rolante, levanto os dois braços na montanha- russa. Freqüento os cinemas da avenida Ipiranga, e tudo o que passa eu já sei de cor. Eu sou ‘de menor’ . Nada tem graça. Ás vezes me escalam para ser criança. É tarde demais. Eu sou ‘de menor’. Já morreu o sol da aurora da vida, saudades não tenho. Eu sou ‘de menor’. Sou vidraça quebrada pela pedra do adulto. Sou o rosto molhado na água da chuva. Sou fliperama, o barraco, a marquise, sou dois olhos mordendo a luz da vitrina, escândalo sou sem a mó do moinho. Eu sou o trapo enxotado da loja, o cara suspeito empurrando carrinho. Sou o discurso jamais realizado. Sou a face clara da fortuna escondida. Sou o cão magrela do epular desperdício. Sou o contrário do cabo da faca. Sou a garrafa vazia jogada no mar que volta coberta de restos da morte. Eu sou a resposta que não espera perguntas. Aqui estou. Na verdade eu só queria ser uma criança com direito como todas a educação, saúde, lazer. Eu não tive esta oportunidade. Hoje sou um adulto, não transformei sua falta de atenção em revolta e sim em amor. Hoje tenho dois filhos, Pedro e João. Eles são filhos adotivos moravam nas ruas como eu e eram chamados de menor. Não dei esmola , nem cola e sim transformei-os em homens de bem. Pedro é advogado e João, médico e ambos trabalham em periferias em busca de um mundo melhor. Por isso não me arrependo de ter sido um menor abandonado. Quero te dizer que não importa ser rico ou pobre, o importante é a sua contribuição para um mundo melhor, com menos violência, corrupção, falta de amor. Tenho certeza que não podemos mudar o mundo, mas podemos movimentar a esperança de um mundo melhor.

Texto adaptado por Atriz Preta Rê
Ex-menina de rua presidente da ONG Portas Abertas.

Um comentário:

  1. Parabéns "Guerreira" Preta Rê! Isso aí!
    Há muito tempo atrás também fiz um Blog, e agora de ver este Blog na ativa tive e empolgação de voltar a postar novamente o meu também. Futuramente irei deixar aqui meu dopoimento e utilizarei meu Blog para ajudar a difundir o nome desta maravilhosa e abençoada ONG..ASSIM SERÁ!
    Excelente texto hein! ;-D

    Paz e Harmonia!


    MEU BLOG: http://www.caminhardotigre.blogspot.com/

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